O Brasil Imperio: e o Brasil republica. Reflexoes politicas offerecidas aos brasileiros amantes da sua patria (Philadelphia, U.S., 1831)
O horror á arbitrariedade, e o desejo de ser
livre, são sentimentos naturáes ao homem.
Estes sentimentos excitão-se mais quando se
veem suffocados pela força. Rousseau dizia
que em huma prisão da Bastilha escreveria,
melhor que no bello jardim de Montmorency,
o elogio da liberdade.
Eis o que vemos com os nossos proprios
olhos todos os dias. Eis a razão porque nehum
estado se avisinha tanto da liberdade
como o despotismo. Homens avisados tanto
nos antigos como nos modernos tempos, havendo
feito profundo estudo da natureza humana,
procurárão introduzir nos estados instituições
em que a liberdade fosse conservada;
mas, como o abuso della se mostrou funesto
Assim procedêrão elles, não estabelecendo
principios derivados de theorias abstractas,
mas tornando em preceitos, e reduzindo a acção
verdades praticas, cuja utilidade huma
longa repetição de actos havia demonstrado.
Não estabelecêrão systemas fundados em theses
geráes: olhárão para a differença da condição
dos diversos povos, e accommodárão a
ella os preceitos governativos, segundo os
quáes os mesmos povos houvessem de reger-se
—Assim se vio que as leis de Solon, de Lycurgo,
de Minos, as de Thebas, de Corintho
&a. todas distinctas em quanto as suas formas,
e até muitas em quanto ao seu espirito
essencial, tinhão aquella perfeição relativa,
que nunca poderião ter se houvessem sido
formadas sobre principios abstractos. Os
dois Reis de Esparta serião hum absurdo em
Athenas.
Se dos exemplos antigos passamos aos modernos,
achamos confirmada a verdade do que
deixamos dito, sem que haja huma só excepção
Se he verdade, como realmente he, que não
pode haver hum systema de governo applicavel
a mais de hum povo, podemos taobem
dizer, com igual razão por ventura, que a
legislação do mesmo povo não pode permanecer
sem alteração por espaço de dois
seculos.
A idea de leis eternas e immutaveis não he
menos absurda que a de leis geráes ou universáes.
Mudão os costumes dos povos, apesar das
leis, mudão seus habitos, muda a origem da riqueza
dos mesmos povos, mudão seus gostos, e
inclinações. Se as leis não seguem estas mudanças,
dentro em breve se verá a legislação
em guerra com os costumes; e o Governo que
a quizer sustentar, porque julgue que nisso lhe
vai a conservação das suas prerogativas, será
dentro em pouco hum governo hostil á nação
que rege. O seu primeiro effeito consistirá
O governo de Inglaterra póde servir de
apoio, e prova do que deixamos dito; e deveria
dar licção aos chefes de todos os estados
para que se não obstinassem em sua opposição
contra o que os pedantes em politica
chamão com emphase ridicula — mudanças
perigosas.
A Constituição Ingleza não he huma carta
como a Constituição Franceza; todos o sabem.
A Magna Charta, o Bill dos Direitos, a
lei do Habeas corpus, a instituição do Jury,
certas maximas praticas de governo, e adminisção,
e outras concessões e foros, em diversos
tempos outorgados, ou extorquidos, formão
o que se chama a Constituição de Inglaterra.
O tempo a tem feito, e o tempo a continuará:
agora está ella a ponto de alterar-se consideravelmente
na parte mais essencial, na representação
nacional; e nem por isso deixaria
de dizer hum disparate quem proferisse
que a Constituição Ingleza ficará melhor,
depois de posta em pratica a grande medida
da reforma parlamentar, do que era ha cem
Assim como he certo que se não pode resistir
á imperiosa lei da necessidade, sem pôr
em perigo a existencia de uma nação, assim
tãobem he verdade que antes desta necessidade
levantar a sua voz seria abusurdo querer
introduzir mudanças na organição politica.
Taobem ha necessidades ficticias; e a muitas
Com este pudéra apresentar-se aqui um
volume de exemplos; mas não se carece de
exemplificar-se o que a experiencia nos ensina
quotidianamente. He esta experiencia o grande
livro das verdades em todas as materias
praticas: a sciencia do governo a isso se reduz;
logo a experiencia deve ser a guia de
todo o homem, em cujas mãos estão os destinos
de um povo. E aquelles que aspirão a
chegar a tão alto estado precisão haver-se
entregue antes a huma qualidade de estudo
Tomando a esperiencia por guia, e examinando
os actos antecedentes, suas consequencias,
suas imperfeições em quanto aos resultados,
&a. &a. evitarão os Legisladores ou os
Governadores, todos os excessos e exaggerações
que nascem da abstração de principios
de que se deduzem doutrinas inapplicaveis, e
impossiveis. Os povos serão gratos aos chefes
que se interessarem verdadeiramente pela nação,
e a considerarem huma collecção de individuos,
cada hum dos quáes tem tantos direitos
como todos juntos; e em geral detestarão
os immoderados innovadores, que fallando-lhes
huma linguagem inintelligivel, destroem
as instituições, que só precisávão de corrigir,
e lhes dão outras peores que as antecedentes;
porque não sendo reclamadas pela necessidade
nacional, lhes são estrangeiras, desconhecidas,
e por consequencia improprias.
O inconveniente que achamos, e que geralmente
achão as nações no estabelecimento
dessas instituições, filhas de combinações abstractas,
existe taobem na servil imitação das
instituições de um povo adoptadas por outro,
taes quaes são. Os males causados por essa
Esta instituição prova bem na China: logo
que dúvida pode haver em adopta-la em Napoles?
Os Estados Unidos são huma aggregação
de Republicas: logo o Brasil deve ser huma
aggregação de Republicas. Homens vãos, que
assim ajuizais: abrí o livro da Historia, que
he a experiencia por escrito: comparai as circunstancias
de hum com as de outro povo; não
deixeis escapar a menos frizante dellas, porque
nenhuma ha indifferente, por pequena
que seja; e depois de longo estudo, e de evaporardes
todo o fogo do enthusiasmo, que em
vós he filho de uma boçal credulidade, decidireis
que a experiencia que serve he a feita em
nós mesmos; na nossa terra; com os nossos
homens; com as nossas virtudes; com os nossos
deffeitos.
Então vereis que a bondade não está nos
nomes, está nas cousas: então vereis que formas
não são essencias; e que das ultimas, e não
Sendo estes principios verdadeiros, não parecerá
trabalho inutil examinar que applicação
possão e devão ter ao novo Imperio do
Brasil. Os esforços que la estão fazendo
individuos tão ignorantes como detestaveis
cidadãos requerem uma illustração aos homens
de boa fé. Nenhum interesse particular move
o author deste escripto a publica-lo: prêso
ao Brasil pelo simples vínculo do nascimento,
que o acaso determina, as suas effeições á Patria
não passam de simples recordações historicas.
Nem huma arvose lá possue: Os seus
parentes e amigos os estima Brasileiros, como
os estimaria Francezes ou Japonezes. O interesse
da justiça, o bem da humanidade ordenam
a todo o homem, que vê os males, que
estão eminentes sobre uma grande porção de
seus similhantes, a fazer as diligencias que pode
para os affastar della. He extraordinaria a
cegueira que domina os revolucionarios Brasileiros:
elles querem tornar a sua enfermidade
contagiosa, e lançar toda a nação no mesmo
O BRASIL IMPERIO:
E
O BRASIL REPUBLICA.
Emancipação do Brasil—suas causas—sua
venturosa marcha—comparação entre ella
e a dos outros Estados da America.
A emancipação do Brasil, posto que só reconhecida
pela Metropole em 1825 em virtude
de hum tratado, estava propriamente determinada
desde 1808. Este successo, de que tão
pequeno cabedal parecem fazer os Brasileiros,
he de notabilissima importancia; e como tal
merece que não passemos por elle como por
circunstancia indifferente.—
Quando o Brasil se separou não era Colonia,
era hum Reino, que durante 14 annos fôra
séde da Monarchia. Em todo este espaço de
tempo foi sempre tratado pelo Governo com
muito mais attenção, e disvelo que o antigo
A revolução que os Portuguezes fizerão
nesse anno chamou o Rei a Portugal. Houve
hesitação sobre qual dos dois, ou o Páe ou o
Filho Primogenito, deveria apparecer neste
Reino: os tumultos do Rio de Janeiro enchêrão
de terror o sñr. D. João VI, que se decidio
a deixar o Brasil, mais com o proposito
de evitar o risco presente, do que fundado
em alguma solida razão para a escolha.
Como este escripto não he destinado a promover
a exaltação das paixões em sentido
nenhum, porque o seu author longe do fóco
dos partidos, não he accessivel ao calor delles,
não serà estranho que os leitores em quem tal
fogo dominar reputem á primeira vista a obra
que se lhes offerece pouco favoravel á causa
da Patria. Ah! não condemnem sem meditar,
e não julguem sem arrefecer: sobre tudo devem
advertir que seria a maior das injustiças
o capitular hum author de inimigo, por que
he parco de louvores. A caso são mui frequentes
as acções dos homens, que merecem
ser elogiadas? Vamos ao assumpto.
Proclamárão os Portuguezes hum Governo
Constitucional representativo, desenterrando
as sepultadas isenções e liberdades nacionáes,
remoçadas e vestidas segundo a moda do seculo
presente. Estas liberdades nunca as Colonias
as haviam gosado; mas os Constitucionáes
não fizerão differença de Colonias a Metropole;
e quizerão que a nação fosse toda
representada.
Circunstancia merecedora de grande attenção
he que o Brasil não acordou do somno
da inercia, que o governo absoluto causa
Mas o incendio correo pouco depois com
incrivel rapidez.—Nos primeiros dias foi pasmoso
o enthusiasmo; elegerão-se Deputados
para as Côrtes Constituintes de Lisboa: os de
Pernambuco forão os primeiros, que lá chegárão:
dentro em pouco tempo apparecêrão
os de todas as Provincias. Em quanto durou
o regosijo causado por tão felizes, quanto
inesperadas mudanças, não se vírão os inconvenientes
que dellas mesmas inevitavelmente
nascião; mas pouco tardou que se fossem
sentindo —O Brasil, séde da Monarchia, qualquer
que fosse a melhoria no systema de Governo,
deixava de ser Capital, e não o sendo,
tornava-se, quando muito, huma Provincia:
huma Provincia que tinha entre si e o corpo
do Reino todo o espaçoque occupa hum Oceano,
que vem a ser? Colonia—mas não: o Brasil
fôra levado á cathegoria de Reino, unido a
Os receios, os ciumes, as desconfianças, sobre
possibilidade de recolonisação espalharão-se.
Dispertárão antigas antipathias, as
quaes pela maior parte os Portuguezes as tinham
provocado pelo modo insolente e orgulhoso
com que tratavão os Brasileiros: como
se estes fossem menos Portuguezes que elles;
tivessem menos foros, e menos direitos: a
onde todos obedecem á lei absoluta do poder
soberano, qual he o mais livre? ou antes, o
menos escravo?
Estas opiniões as enviárão em grande parte
os Deputados Brasileiros do Congresso de
Lisboa para serem semeadas no Brasil; mas
está entendido, que achando-se as Provincias
Brasilicas discordes entre si, como sempre estiverão,
o fructo da sementeira não poderia
ser o de hum sentimento forte e propriamente
nacional, se o Imperador, então Regente do
Brasil, não servisse de centro e de apoio ás
pertenções dos povos. Estes voltando para
S. A. toda a attenção, e obedecendo ás ordens
que delle recebião, em conformidade da
opinião geral, que finalmente se apossou de toda
a população, virão-se em termos de ganhar
a independencia sem revolução. Não sentírão
o intervalo entre o governo, que acaba
á força de impulsos violentos, e o que principia
no meio de convulsões, de encontros de
partidos, e á vista das bayonetas inimigas.
O Brasil pelas pequenas refregas que experimentou
póde ajuizar das que sentiria, se não
tivéra por chefe o Principe Real do Reino
Unido.
Não permittem os limites deste escrito entrar
em particularidades, comparando prolixamente
a marcha da independencia Brasileira
No fim da guerra de 1763 gosavão as Colonias
Inglezas da America de prosperidade
igual aos estados mais florecentes da Europa
em todos os ramos de que depende a fortuna
publica. Era estreita a união entre a Metropole
e as ditas Colonias; mas o direito de impor
tributos a estas, sem o concurso e consentimento
dos povos, o que constituia a principal
differença entre os fóros dos cidadãos Inglezes
na Europa e na America, breve foi
causa de uma guerra nacional, que terminou
pela independencia.
Os Americanos comtudo, negando a obrigação
de pagar tributos arbitrarios, não tomárão
logo as armas para obter justiça—
representárão: enviárão a Londres o famoso
Franklin, e este conseguio a revogação da
lei do sello; mas entrando Lord North para
o ministerio, o Governo porfiou em lançar
tributos ás Colonias, ainda mais pesados do
que os da sobredita lei, Eis a provocação
Nem ainda então os Americanos deixárão
de representar com esperança de obter provimento.
Verdade he que desde logo derão
começo aos seus preparativos de resistencia;
porem só com o presupposto de assim mais
facilmente alcançarem favoravel despacho,
do que se se mostrassem desappercebidos.
Convocou-se o Congresso Americano em Philadelphia;
e o partido dos descontentes, que
nelle havia, levantou a voz, não para se separar
de Inglaterra, mas para mostrar o direito
que os Americanos tinhão a que se lhes
fizesse justiça. A mãe-patria mandou-lhes
regimentos, e não providencias: Um destes
regimentos tomou as armas para persuadir
* O anno de 1775 vio o começo da guerra.
Os generáes Gage, Howe, Burgoyne, e
Clinton derão combates, e batalhas: a fortuna
foi longo tempo vária, apesar dos grandissimos
recursos dos Americanos, e da quasi
geral opinião que dominava a favor da
separação. França e Hespanha ajudárão a
empresa por odio á Grãn Bretanha, e não
por amor á liberdade: e quem poderia acreditar
que Reis absolutos protegessem o esforço
de um povo, que pertende constituir-se
livremente, levados de sentimentos de humanidade?
Um dos monarchas mais philosophos
desse tempo, José Segundo, respondeo
a um Diplomata, que familiarmente lhe
perguntou de cujo partido era S.M.—Au
Ao seu aceno em Boston
O Lyrio ajudador tremola ovante.
Em oito annos que durou a lucta sanguinolenta
dos Estados Unidos com Inglaterra (porque
a paz entre as duas Potencias só se assignou
em Paris em 30 de Novembro de 1782)
quantas perdas, quantas derrotas, quantos incendios
de povoações, e de navios não soffrêrão
os Americanos? Nenhum ha que não
confesse a impossibilidade em que o paiz se
achava de triumphar dos exercitos e esquadras
de Inglaterra. Os talentos e coragem
de Washingtons, Lafayettes, Adams, Fanklins
&a. &a. não poderião arrostar o poder da
Metropole, se as Provincias Americanas fossem
abandonadas a seus proprios meios de defeza.
Mais modernos, e nossos contemporaneos,
são os estragos, que tem experimentado, e de
que ainda está sendo victima a antiga America
Hespanholla. Desde Chili até á California,
desde o Perú até ao Mississipi, e ás Floridas
Huma coincidencia ha entre as sublevações
do Brasil e dos Hespanhóes Americanos para
alcançaram a sua independencia: e vem a ser,
que ambos os paizes se declarárão independentes
quando por esforços populares das Metropoles,
se havia posto hum termo á oppressão,
com que durante tres seculos o Governo
os tinha atormentado. Mas os visinhos do
Brasil trabalhão ha vinte annos; e durante
elles hão sofrido desgraças de toda a especie—
invasões (ainda que lhes tem resistido) discordias
civis, mudanças de governos militares, a
qual mais rigoroso, mortandades, despovoação,
fome e todos os horrores que se lhe seguem.
Os seus thesouros hão passado ás mãos de
novos Phlibustiers; e a sua tão suspirada representação
e liberdade nacional, em que parárão?
Em obedecerem, e servirem ambições
de soldados, denominados protectores, defensores,
dictadores, e em verdade, todos oppressores,
e conquistadores de seus concidadãos.
As pelejas entre soldados da mesma nação
dão cabo da disciplina; e perdida ella, estabelece-se
a anarchia militar, o maior dos flagelos.
Dentro de poucas semanas vírão os
nossos visinhos triumphar e ser vencido o mesmo
chefe, sem outro motivo mais que o habito
O que fica dito entende-se em quanto ás innumeraveis
dissenções, que os Americanos tem
tido entre si: não se trata das suas contendas,
com os Hespanhóes, os quaes ainda estão loucamente
pertinaces em seus planos de conquista;
nem podem crer que toda a America
se atreva a resistir-lhes: Ninguem ignora que
os cabos dos differentes corpos armados tem
mais vezes mandado atirar aos seus concidadãos,
por disputas nascidas de ambições riváes
do que aos Hespanhóes. Os diversos Estados
independentes, que se levantárão nas antigas
Colonias, ainda não fôrão reconhecidos por
Fernando: quem sabe se depois de o serem,
se dará principio a novas guerras civis, que
por agora estão amortecidas por falta de meios
de custear a campanha?
Quem lançar os olhos para os estragos e despesas
que a independencia dos Estados Unidos
custou, e a que ainda está custando a dos Estados,
que succêderão ás possessões de Hespanha,
avaliará a singular fortuna, e brevidade
com que foi conduzido o movimento que
o Brasil fez para a sua emancipação.
Quem deu apoio, e direcção ao movimento nacional
para a independencia—Bens que o Imperador
fez ao Brasil, e males que delle
affugentou—Riscos a que se expoz—Singularidade
da sua situação.—
Por insurreições parciáes começou a manifestar-se
a opinião do Brasil contra a união
á Metropole; mas destas insurreições erão
varios os pretextos: em huma Provincia queria
o chamado povo (o qual pela maior parte nunca
exprimíra o menor desejo) que a o Governo
criado no tempo do regimen absoluto se substituisse
hum, nomeado pelo Principe Regente;
em outra negava-se obediencia á Junta porque
fôra eleita em tumulto, e não segundo a
vontade dos habitantes. A idea de soberania
popular, postoque não bem definida, era a
incognita divindade a que parecia render-se
culto. Levantou-se hum clamor bem combinado
contra as tropas Portuguezas, e contra
os chefes militares, que as commandavão; e
S. A. que tinha determinado evitar todo o
encontro de Europeos com Americanos, porque
Entretanto os Deputados do Brasil trabalhavão
em Lisboa para a emancipação; mas
não trababalhavão com a dignidade que tamanho
assumpto merecia. Porque não apresentárão
claramente no Congresso huma reclamação
para obterem a independencia, huma
vez que não achassem outro meio de satisfazer
ás necessidades publicas, e de promover a fortuna
do Brasil? He certo que fizerão muito
pela mesma independencia; mas fizerão-no
usando de enganos, que estão mal a homens
encarregados da importante missão que lhes
fôra incumbida: protestavão em publico a
lealdade dos povos do Brasil á mãe-patria, e
incitavão estes povos á rebellião. Todas as
medidas propostas a favor do Brasil por seus
representantes reduzião-se a queixumes de excessos
antigos; e quando pedião providencias,
era tamanha a dissenção entre os mesmos
Vãns pregações! Os Deputados Brasileiros
fugírão do Congresso. Quanta gente riria
em Lisboa do valor dos nossos representantes
A questão da separação do Brasil agitouse
no calor das paixões: os mais habeis Deputados
Portuguezes a encarárão mal. As
opiniões diversas juntárão-se em lados oppostos;
formárão partidos; estes de ordinario
despresão a razão, e combatem, como vulgarmente
se diz, por honra da firma; porem
o resultado final he completa perdição.
O Principe Real vio o caminho que levava
a opinião; vio as facções em que esta se
dividia; conheceo que manifestado o sentimento
nacional, o reprimi-lo (no caso de
isso poder conseguir-se) retardava o grande
successo, mas não o evitava—Este successo
estava mais de metade completo: correr o
risco de o começar de novo em hum momento
futuro, com probabilidade de o não poder
dirigir tão pacifica e facilmente, era
imprudencia. S. A. consultou o melhor partido
para os povos do Brasil, e esse seguio
mas seguio-o com firmeza e diligencia.
O Snr. D. Pedro proclamou aos Brasileiros
a deliberação em que estava de pugnar
pela sua independencia: empenhou a sua
Desde este momento desfizerão-se os diversos
centros de revolução, que iam apparecendo
em varias provincias, e cujo primeiro
resultado seria enfraquecer os meios
de resistencia, e os laços da união. Se estes
centros, que devião servir de throno a ambições
obscuras, chegassem a ganhar alguma
consistencia, veriamos dentro em breve discordias
e guerras intestinas, que ajudarião
os Portuguezes a subjugar os que elles chamavão
rebeldes.
A Providencia affastou da nossa patria este
terrivel flagelo. O Principe como que dirigido
por inspiração celleste, organisava a nação
lidava para torna-la independente de Portugal,
e sustentava ao mesmo tempo a ordem
e obediencia ás leis no interior; ferindo
com huma espada de dois gumes ja os inimigos
externos, ja os internos do Imperio
nascente.
Ao ver a facilidade, ou antes a covardia
com que as forças Luzitanas de mar e terra
Porque tão extravagante procedimento?
Porque, ficando vencedores em todas as refregas
que tinham com os nossos soldados,
Esta circunstancia operou na Metropole
não menos que nos Portuguezes, que se achavão
no Brasil
Não houve General que quisesse ir tomar o
commando das tropas da Bahia, augmentadas
com terceira expedicção, enviada para
formar dellas huma divisão respeitavel: divisão
de mais de 6000 homens, e huma esquadra.
Quem lhe resistiria por espaço de dois
annos?
Não houve General que lá quisesse ir: e
não por falta de valor. Dois que forão nomeados
gosavão de boa reputacão militar;
porem não ousárão tomar armas contra o
Os progressos dos Portuguezes, que não
podião ao principio deixar de ser victoriosos
por seu numero e displina, far-lhes-hião partidistas:
dentro em breve a guerra estrangeira
seria ajudada pela guerra domestica. Ah!
Considere qualquer Brasileiro, que présa a
felicidade de seus concidadãos, quantos desastres
o Principe Real affugentou do solo da
sua Patria!
E não sem risco proprio. O Principe tomou
parte em huma contenda, cujo exito podia
esperar-se feliz; mas ninguem o julgava
rapido. Apesar das probabilidades a favor
da independencia, bem se sabe que todas ellas
frequentes vezes falhão nas mais bem combinadas
empresas, em virtude de hum incidente
com que se não pode contar, e que vem mudar
inteiramente a face dos successos. Sua
Alteza propoz-se combater a favor dos Brasileiros,
a quem prometteo defender:—e contra
quem combateria, no caso de vir a ser necessario
apresentar-se á frente dos seus soldados?
O certo é que a condicção em que se achou
o Imperador do Brasil, tomando a resolução
de pugnar pela independencia do Imperio, o
que franca e denodadamente communicou
a seu Augusto Páe, he singularissima. O
Sñr D. Pedro não combatia, como Washington,
Vantagens do estabelecimento de hum Governo
monarchico-representativo no Brasil—Esta
forma de regimen parecia conforme com a
opinião dos habitantes, e com o estado da
nação—Demonstra-se.
Fora geralmente applaudida a resolução
tomada pelos Portuguezes em 1820 de pôr
termo ao absolutismo do Governo, conservando
a Monarchia. Esta mostra de respeito pelo
Rei, ao mesmo tempo que nenhum havia pelos
defeitos do seu Governo, defeitos que se attribuiam
aos ministros, que exercêrão o poder,
e á indole do absolutismo, fez tamanho partido
a favor das bases da Constituição, que
Havendo o Senhor D. Pedro ficado no Brasil,
o povo Brasileiro não sentio contrariedade
alguma ás suas affeições a respeito da familia
real: e podendo combinar a satisfação
dellas com a sua independencia, correo a este
objecto com inalteravel união, na intelligencia
de que, sem faltar aos deveres da fidelidade
para com seus Principes, podia obter a separação
de Portugal, e tornar-se huma nação
independente.
Não pareção estas asserções hypotheses
imaginarias, trazidas a bel-prazer do escriptor
para dar fundamento a um systema, ou
encadeamento de principios politicos, que
pertende authorisar com factos que inventa,
O espirito nacional Brasileiro era pois
pela Monarchia: este o governo de nossos
Quanto menos illustração tem as nações,
mais perigoso he o destruir de huma vez o
regimen a que estão acostumadas. Este
regimen tinha dado á educação nacional huma
direcção monarchia, para assim dizer: a
melhor para constranger os povos a marcher
no caminho da civilisação. Se Pedro grande
da Russia não obrigasse os Moscovitas
a rapar as barbas, talvez que ainda hoje
não houvesse barbeiros em St. Petersburgo.
Era a Monarchia o melhor instrumento
para introduzir no Brasil essa civilisação,
que lhe faltava, e para fazer adoptar aos
povos os melhoramentos que hum governo
representativo só lhes podia dar. Ninguem
duvidará, que, sendo como he a Monarchia
constitucional huma forma de governo capazde
fazer os maiores beneficios aos povos, devia
ella preferir-se no Brasil a outro qualquer;
porque podia, sem causar grandes abalos, sempre
muito arriscados, e quasi sempre fatáes,
A vasta extensão do Brasil—hum só povo, em
quanto não for assas povoado para formar muitos
—hum só povo; porque por agora não pode
dividir-se sem enfraquecimento desgraçadissimo,
sem huma ruinosa dependencia—esta vasta
extensão, com intervalos desertos, carecia de
huma forma de governo, cujo poder executivo
se exercesse com bastante vigor, e pelos cannáes
que os povos ja conhecião, para não estranharem
ao mesmo tempo a authoridade, e
as ordens por ella transmittidas.
Não nos entreguemos ao vago das abstracções:
olhemos para os nossos homens; vejamo-los
como elles são; e appliquemos-lhes os
principios politicos com as modificações necessaries
para se lhes tornarem uteis.
A feição dominante do nosso povo he a preguiça.
—A exportação das riquissimas producções
do paiz tornava necessarias estradas; mas
para as abrir era preciso coacção, até com
força armada!—Em hum clima tão ardente
como toda a parte do Rio de Janeiro para o
norte, não sendo as habitações das villas e cidades
lavadas do ar, como não erão, á excepção
das grandes povoações maritimas, tornavão-se
Em tal caso, para tornar os Brasileiros felices,
era forçoso usar de meios vigorosos: estes
meios não podião deixar de existir na forma
do Governo, que os adoptasse como medidas
permanentes, e sempre vivas. O Governo
monarchico-representativo, conciliando a força
com a liberdade, isto he, com a liberdade
que os Brasileiros pudessem tolerar; e lançando
os fundamentos a mais vasta porção
Alguns leitores poderão a caso intender que
o negarse que o povo Brasileiro tivesse, no
momento da independencia, o estomago corroborado
para receber o alimento da liberdade,
quer dizer que elle tão pouco estava preparado
para a mesma independencia. Quem
assim interpretasse o paragrapho antecedente
daria ás palavras que estão escritas hum sentido
ex abundanti, que não sendo o que ellas
significão, pertence ao interprete e não ao escriptor,
O que fica dito sobre a independencia politica
das Nações, applicado á Nação Brasilica,
unida sob hum Governo geral, que a torne
hum só corpo, he de notoria verdade: o facto
a tinha demonstrado durante os 14 annos em
que foi a cabeça, e a parte principal da Monarchia
Portugueza; o facto a confirma desde
1822 até agora—Porem ousará alguem dizer
Calem-se aqui os ambiciosos, que pertendem
ser os primeiros na sua aldea, porque não
podem ser os segundos em Roma: não nos
respondão aquelles Republicanos, que deixarião
de o ser, se o Imperador fizesse huns Presidentes,
outros Governadores, outros (oh
modestia republicana!) simplesmente Juizes
da Alfandega!....Respondão os proprietarios,
e cultores industriosos, que não anhelão
por logares, nem por condecorações: respondão
aquelles, que reputão melhor o Governo
que os governa bem, e não aquelle em que
elles podem governar mal; os que desejão
não ser opprimidos, e não os que procurão
opprimir: e então se verá quantos votos se
achão no Brasil desde o Rio Grande até ao
Amazonas a favor das Republicas federadas,
com que sonhão os miseraveis Baratas, e os
despeitados Barbacenas — hontem consules,
hoje tribunos, para serem dictadores á manhãn!
Nos Estados Unidos da America emancipados,
o Governo Republicano era o mais natural,
segundo as suas circunstancias.—No Brasil
emancipado, hum Governo Monarchico-representativo
o mais natural, segundo as suas
—Demonstração.
A imitação discreta he sem duvida de
grande proveito para os individuos, e para as
Nações: a ella devem os povos modernos, em
grande parte, os rapidos progressos, que fazem
em todos os ramos, e até certa fraternidade,
que de cada vez mais os une, e irmana; e
que talvez acabe por dar realidade ao philantropico
sonho do Abbade St. Pierre. A imitação
indiscreta he fonte de erros, e de desordens;
torna ridiculos os individuos, e manifesta
Os Estados Unidos separarão-se da mãepatria,
como deixámos dito no capitulo I°.,
depois de huma guerra de oito annos, conduzida
longo tempo com fortuna varia; e terminada
a favor da Colonia em virtude dos
poderosos soccorros de França e Hespanha, e
dos talentos e constancia dos chefes das tropas,
e do Governo. Este Governo, e hum Congresso
representativo, não podião deixar de
constituir-se em forma republicana: 1°. porque
o paiz era Colonia de huma Monarchia, e detestava
a forma do governo que reputava oppressor
—2°. porque, achando a Colonia oppressivo
hum Governo monarchico misto, ao primeiro
passo que desse para o lado popular, devia
cair em Republica pura e simples—3°. porque,
sendo grande parte dos habitantes dos Estados
Unidos descendentes dos homens, que emigrárão
de Inglaterra perseguidos pela intolerancia
do Governo, politica ou religiosa, por
força havião de aborrecer toda a especie de
prepotencia, e professar principios mui amplos
de liberdade, que se suppoem existir em Governo
A gente perseguida por opiniões religiosas
levou para a America os principios de
tolerancia absoluta, e de igualdade: apenas
se pode dar huma sem outra. Os discipulos
de Fox, a que Chateaubriand denomina
graves fous avec des grands chapeaux et des
habits sans boutons, partirão para as margens
da Delaware, guiados por Guilherme Penn;
e forão comprar aos donos da terra, que tanta
gente havia roubado, huma patria livre
das perseguições das seitas intolerantes.
A Carolina tinha recebido do sabio e profundo
Locke hum codigo republicano: as
instituições municipáes populares erão poderosas
nos Estados Unidos, que longos annos
existirião indifferentes ao nome de colonia,
cujo effeito não podião sentir, se o Governo
de Inglaterra se não obstinasse em imporlhes
Está pois visto que o estabelecimento de
huma Republica era a marcha natural nos
Estados Unidos: a adopção desta forma de
Governo parecia, por huma parte, a mais conforme
com as instituições municipáes, pelas
quáes os ditos Estados se região em perfeita independencia
em quanto á sua economia domestica,
e á sua particular administração interna;
e por outra, era a que podia enfrear os receios
das suppostas ambições daquelles homens,
que por seus serviços e illustração, serião objecto
do ostracismo de individuos, tão sem
merito, como cheios de pertenções. Desta
gente ha grande numero em toda a parte.
A Monarchia acabou pois nos Estados Unidos,
por que erão Colonia, porque não tinhão
lá nem Principe, nem corpo de nobreza, nem
religião dominante, nem previlegios, mais que
o do regimen municipal, que era huma pura
regalia popular, em que a Nação, para assim
O estado de Colonia tinha acabado no Brasil,
e com elle devia acabar todo o odio que
resulta da differença impolitica e cruel entre
metropolitanos e colonos.
O Brasil era a parte principal da Monarchia
Portugueza, porque era a maior, a mais rica,
e aquella que possuia a Côrte. Portugal corria
a lançar-se no Brasil, para onde saíão cada
anno milhares de individuos, que dizião
eterno adeos á Patria, em que não esperavão
fortuna. El Rei mostrára sempre, ou por
politica, ou por sentimento, hum certo horror
á idea de voltar a Portugal: ainda mais: indignava-se
contra os que lhe patenteavão desejos
de regressar do Brasil—Fez grandes
distincções aos Brasileiros; preferia-os sempre
aos Portuguezes; a muitos deo titulos
de nobreza, ordens, e empregos de elevada
Ora no momento da separação, havia o espirito
de classe, não só nos nobres, que el Rei
fizera, mas taobem nos seus parentes, e naquelles
que aspiravam a igual distincção; porque
tendo conhecido os seus compatriotas no
mesmo nivel politico em que elles se achavão,
intendião que hum Governo monarchico os
augmentaria, e os levaria a par daquelles, a
quem não podião deixar de olhar com inveja.
Tinha por tanto a continuação da forma
do Governo monarchico a seu favor, e em seu
apoio, os Brasileiros que ja pertencião ao corpo
da nobreza, e todos aquelles (e erão muitos)
que aspiravão a formar parte desse corpo:
isto he todos os que posuião mais que
mediana fortuna.
No Brasil havia hum Principe, e nada menos
que o Herdeiro da Côroa: este, longe de
oppor-se á independencia, como faria, sem
excepção, outro qualquer Principe Europeo,
fosse quem fosse, guiou, como vimos, o movimento;
arriscou a sua pessoa, os seus destinos futuros,
por esse Brasil independente, a quem elle
queria fazer ditoso, sob instituições tão liberáes,
Sendo esta a verdade; devendo os Brasileiros
ao seu Principe e Defensor, como devêrão,
a liberdade, e a independencia; tendo este
Principe em suas mãos as cadêas dos destinos
do Brasil, qual ficaria sendo a sua condição,
depois de conseguir torna-lo quasi sem custo
livre e independente? Ser reduzido á condição
de hum particular? Seria este o merecido
galardão de tantos beneficios? Hum
particular, que tivesse feito á sua patria o
que o Snr. D. Pedro fez ao Brasil, podia contentar-se
com as corôas civicas, com huma
estatua, com hum titulo de illustração. Mas
qual outro se poderia dar a S. M. I. que não
fosse o de ser Monarcha de hum povo, que
só tinha em si elementos de Monarchia, e que
devia ser feliz com ella?
O clero do Brasil, pago pelo Governo monarchico,
e sem bens seus proprios, de que
tirasse subsistencia, pois que não possue nem
terras de uso fructo, nem direitos senhoriáes,
Desta conclusão facilmente se deduz o corolario
seguinte: Os visionarios do Brasil,
que de continuo pregão sobre a decadencia
do Imperio, e sobre a prosperidade da Republica
Americana, enganão-se torpemente
quando assegurão que a tendencia natural do
Brasil era, como a dos Estados Unidos para
hum Governo republicano. Que vaidade!
—No Brasil todos os elementos erão monarchicos;
e talvez affoitamente se pode repetir
Qual seja o fundamento porque, absolutamente
fallando, huma forma de Governo se diz
preferivel a outra, não pode da-lo homem
algum sensato; pois que na verdade o não
ha. Nos Estados Unidos creou raizes o Governo
republicano, pelos motivos que ficão
ditos; mas a Republica Ingleza, que se seguio
á morte de Carlos I. provou-se impossivel.
Cromwell foi hum verdadeiro monarcha absolutissimo,
e despota: o seu genio enfreou
o espirito republicano, que tinha apparecido;
porque este era hum verdadeiro espirito de
facção—as facções comprimem-se; porem o
Os homens e as nações são susceptiveis de
huma certa perfectibilidade, mas não de toda
a perfectibilidade, que possa imaginar o cerebro
de hum politico em suas abstracções philosophicas.
Inglaterra e França constituidas
em Monarchias constitucionáes prosperão
O movimento que o Brasil fez para a sua
independencia não foi, como fica dito, por
magoa de offensa, que recebesse do Governo
da mãe-patria; porque ja ha muito tinha
cessado de ser Colonia: e essa condição estava
esquecida. Não por inconvenientes,
que lhe resultassem da essencia do regimen
estabelecido; pois que de facto o paiz havia
prosperado com elle, apesar dos seus defeitos;
e estes defeitos erão susceptiveis de emenda,
sem necessidade de desmantelar-se o edificio
até os alicerses. Estes defeitos não estavão na
indole, estavão naquella forma de Governo
monarchico. Por conseguinte o Governo monarchico
Republicas Hespanhollas—Suas desgraças—
Porque he difficil, ou impossivel mantillas
em paz—Que lhes falta?—Bolivar.
Fica demonstrada a rasão porque nos Estados
Unidos do norte da America se estabeleceo
hum Governo republicano, ou antes muitos
Governos republicanos; e fica tãobem
exposta a differença de circunstancias que se
dava entre o Brasil e essas Provincias: differença,
que não podia deixar de haver no resultado
das tentativas de hum e outro povo,
para alcançar a sua independencia.
He singular a teima dos Republicanos do
Brasil, se he que merecem este nome homens
que fingem aspirar a hum optimismo politico,
de que fazem agradaveis pinturas ás turbas
dos sandeos que os acreditão. Em quanto vião
a sorte das Republicas, em que se dividirão
e subdividirão os antigos Estados Americanos
de Hespanha, com quem os nossos costumes,
habitos, religião, e clima, tem muito
maior analogia do que com os Estados do
norte, que forão de Inglaterra, nunca affastavão
a attenção destes ultimos; nunca deixaram
de prégar com o seu exemplo; de
meter pelos olhos dentro dos Brasileiros incautos
a riqueza, a industria, a liberdade dos
Estados Unidos.
E não por ignorantes fugião e fogem ainda
os suppostos regeneradores da Patria, os anti-imperiáes,
de entrar no parallelo, que os confundiria,
se o fizessem com sinceridade, com
dezejo de vir a formar o mais seguro juizo
da situação das cousas: he pura malicia a que
os desvia do caminho da analyse: nem elles
são Republicanos, nem patriotas: são o contrario
de tudo isto: o que mostraremos brevemente.
Sublevárão-se as Colonias Americanas de
As Capitanias erão grandes, e independentes:
de capital a capital corrião grandissimas
distancias; cada huma naturalmente propendia
para formar hum Estado, e assim succedeo.
A maior parte dellas tinhão os meios
necessarios para se manter, e governar; e
por isso pode affoitamente dizer-se que estavão
em idade de gosar de politica independencia.
A civilisação havia feito em todas
as terras da costa do mar progressos incriveis.
He de justiça confessar que, pela maior parte,
os Capitães Generáes Hespanhóes erão homens
A independencia de algumas dellas não se
effeituou sem resistencia, não obstante a fraqueza
de Hespanha. Mas os obstaculos nas
Provincias continentáes vierão a diminuir,
porque da Metropole não houve, nem podia
haver soccorros a tempo. Nas Ilhas, e praças
fortes maritimas, apparecêrão maiores difficuldades;
porem finalmente, apesar das forças
que Fernando VII enviou, logo que se vio
restituido á Hespanha, foi o seu Governo perdendo
huma a pós outra todas as terras, que
havião conservado a voz da Metropole; e
hoje possue a Ilha de Cuba no Golfo do
Mexico.
Mas nem Hespanha se achava com meios
de reduzir á obediencia tão vasta porção de
territorio, nem o absolutismo podia servir de
meio de conciliação. Essa parte do paiz, que
havia permanecido fiel á mãe-patria, estava
ligada com os laços da liberdade constitucional,
porque os homens mais instruidos da
America esperavão, estabelecido o novo systema
politico em Hespanha, gosar de hum
governo local, e independente; formar instituições
municipáes, e provinciáes, segundo as
peculiares circunstancias de cada Provincia;
e conservar da união o que era util e necessario
para a manutenção da tranquillidade publica,
e para sustentar a força do Estado.
E como Fernando, havendo assassinado a
liberdade na Hespanha, appareceo ainda tinto
de sangue na America, em logar de saudações
dos mesmos povos, que até então havião permanecido
Hespanhóes, ouvio o clamor da indignação
geral; e alem das outras desgraças,
que havia causado á Nação, causou mais essa:
não tanto pela perda do resto das Colonias,
as quáes não podião ja dar á mãe-patria o que
algum dia lhe derão; mas porque, naquellas
vastas regiões se havião de enterrar milhares
de infelizes de hum e outro Mundo, para
Porem, conquistada, ou achada sem custo
a independencia da Metropole, estabelecerão
acaso as Provincias livres Governos nacionáes,
e permanecerão em paz interna cidadãos com
cidadãos, e externa com os seus visinhos?
Dizei-o vós, ó Catões, e Brutos do Brasil:
dizei-o vós mesmos. Ainda não cessárão as
sedições, as discordias, as guerras civis, as
mortes, os ultrages, e as mais atrozes injustiças.
—Ambições luctando com ambições,
crimes auxiliando-se de crimes: e para que
tudo isto? Para depor homens do poder, e
elevar homens ao poder—A voz de liberdade
he sem significação—ou, se alguma tem, quer
dizer—governar eu.—Corramos as Provincias,
ou as Republicas Americanas, e procure-se
huma só, aonde se tenhão mostrado adoptaveis
os principios republicanos, que em todas
se hão proclamado. Em nenhuma parte:
em nenhuma!! Porque pois esta contradicção?
Facil he dar a razão della.—Na America
Hespanholla havia muitos mais elementos
monarchicos do que republicanos; mas não
havia quem pudesse ser Monarcha; e assim
em logar de governos republicanos, virão-se
O estado a que esta anarchia tem reduzido as
ricas Provincias Americanas todos o sabem.
Que he das immensas riquezas do Mexico, do
Perú, de Buenos Ayres, do Chili; em fim de
toda a parte de tamanho Continente, e das
Ilhas que povoão seus mares? De algumas,
certas aventureiros tem gosado; e a longa
successão de discordias civis consumio o resto.
Dentre tantos aventureiros, causa notavel!
só appareceu um Soldado republicano de alto
caracter—Bolivar—sempre accusado de tyrannia,
e sempre arrancando a sua patria das
mãos de tyrannos ambiciosos: combateo mais
contra estes do que contra os Hespanhóes—
Em quanto foi Dictador manteve a ordem e a
Paz—Dimitindo-se da Dictadura, entregandoa
authoridade ao Congresso, e reduzindo-se á
classe de simples cidadão, via-se de novo obrigado
a salvar a patria das facções que a dilaceravão;
e a combater e vencer seus riváes,
todos indignos delle. Bolivar seria Rei se tivera
nascido Principe: não teria antagonistas
descubertos, e constituiria hum grande estado
feliz e livre. A sua alma generosa sentia
O cansaço e a fraqueza tem amortecido o
fogo das discordias na America Hespanholla.
—Mas essas famigeradas Republicas, que antes
forão partes importantes da antiga Monarchia,
são hoje, não crianças que promettem
vigor e crescimento, porem corpos decrepitos,
cujas poucas forças diminuem de
cada vez mais. O commercio inglez teve
desta verdade hum desengano fatal em 1825.
Vendo que o seu Governo enviára Consules
para aquelles Estados, entrou em grandes
empresas, que todas forão desgraçadas pela
miseria do paiz: e este contra-tempo deo hum
golpe terrivel na industria da quelle reino.
Se tal ha sido o destino das ricas possessões
Americanas, que seria do Brasil com menos
vantagens que ellas? O Brasil, grande e
prospero, sendo unido, que seria, ou que pode
ser ainda por alguns seculos, desunido? A
sua união faz a sua força; porque todo elle
tem tudo: separado em diversas partes, constituiria
miseraveis fracções dependentes, algumas
das quáes virião até a despovoar-se
de todo.
O Imperador salvou e mantem a Nação.—Sem
elle acabaria ella.—Quem dezeja a destruição
do Imperio ou não ama a patria, ou
é crassamente ignorante.
Os simples traços, que ficão lançados no
capitulo antecedente, bastão para causar profunda
impressão em todo o Brasileiro, que
puzer defronte delles o quadro da independencia
da sua patria. Ha mais de vinte annos
que se derrama sangue nas possessões Hespanhollas:
em que parte dellas deixará o viajante
de encontrar vestigios das mortandades,
que tem havido durante esta longa e desgraçada
contenda? Fernando VII. ha despovoado
seu ja bem pouco populoso reino de
victimas enviadas a perecer sem gloria, e sem
proveito em terras longinquas; e os novos Estados
hão pago carissimamente as victorias
que algumas vezes alcançárão de seus inimigos.
A differença a favor dos Independentes
consiste em que esses inimigos, ou venção
ou sejão vencidos, enfraquecem sempre;
e hum dia virá em que desappareção.—A
A independencia Brasileira tentou-se, disputou-se,
e venceo-se em menos de tres annos!
Não custou cem vidas perdidas em pelejas,
sommando a perda de ambas as partes! Houve
dissenções domesticas, que mais parecêrão
jogos de crianças, ou simulacros de combates
do que recontros de forças armadas.—
A Provincia de Pernambuco, aonde a Republica
de 1817 deixára certas sementes de loucura
democratica, foi theatro de batalhas dos
Affogados, e de triunfos do Recife; porem
quem considerar porque se derão essas batalhas,
pouco mais sanguinolentas do que a de
Utinga, achará que formas de governo jamais
foram o motivo da dissenção; mas sim quem
havia de mandar entre os Barretos, Cavalcantes,
Wanderleys, &a. &a. A favor ou contra
Republicas ou Monarchias não se queimaria
huma escorva em todo o Brasil, senão
houvesse a grande causa que dá movimento
ás massas—a ambição de governor—a vaidade
Apresente-se hum só caso em que estes não
fossem os motivos verdadeiros dos combates
e das sedições: se hum só exemplo se der
em que se demonstre que a mais ou menos
liberal forma de Governo moveo as pernas e
os braços dos contendores, confessará o escritor
deste opusculo, que se illudio em suas
conjecturas e juizos; e que o Imperio do Brasil
deve ser dividido em 20 Republicas independentes,
federadas ou infederadas. Clamará
que Vasconcellos, Coutinhos, Vergueiros,
Baratas, Gervasios, Franças e muitos outros,
cujos nomes ficão por mencionar, para não
offender a simplicidade republicana de seus
dônos, são PHOCIONS e ARISTIDES.
Infelizmente não possue o Brasil patriotas
de tal tempera: e aonde os ha? Se essas refregas
que houve, e a que o Governo do Senhor
D. Pedro, antes e depois de Imperador,
se appressou a pôr termo, não tiverão consequencias
desastrosas, a quem se deve o havelas
evitado? Deixará de dizer-se que a S. M.
I.? Se, existindo elle, Senhor sempre da força
armada de terra e mar, e sempre com o pé
Em virtude destes ambiciosos sentimentos,
desta miseravel ignorancia, houve em algumas
Provincias conjurações para proscrever
os Europeos! Que desgraça! Que delirio!
Se os homens que sopravão estes fogos o fazião
na persuasão de que expulsos os ditos
Europeos, podião os naturáes Brasileiros ser
mais felizes, possuindo os meios de enriquecer
que aquelles havião tido, he força confessar
que tamanho absurdo suppõe huma perfeita incapacidade
mental—Se esses homens despresiveis
ignorão que expellir proprietarios, e
capitalistas industriosos do Estado he promover
a desgraça do mesmo Estado, então que
he o que elles sabem? E como he possivel
conceber-se, que individuos de táes principios,
e de táes ideas, hajão de occupar as cadeiras
do Governo do seu paiz? Mas se essa expulsão
era procurada para satisfazer vinganças
Se os Europeos, isto he, alguns nominalmente,
conjurassem contra o novo Estado, merecião
ser punidos em conformidade das leis.
Aos Brasileiros incumbia velar bem sobre os
passos daquelles, cujo porte inspirasse desconfiança;
porem nunca se mostrou a existencia,
nem o plano de táes tentativas; e por isso o
fim da expulsão não podia ser outro senão a
satisfação de paixões particulares baixas e
indignas.
Taobem a estes damnos acudio o Imperador;
e acudio de modo, que nunca deo aos Brasileiros
pretexto algum de o julgarem mais favoravel
aos Portuguezes do que aos nascidos
no Imperio. He certo que depois da epocha
da independencia não devia restar differença
alguma entre naturáes e adoptivos; por quanto,
se antes todos forão Portuguezes por haverem
nascido dentro dos limites do Reino;
depois da emancipação todos devião ser Brasileiros,
porque todos formavão a assossiação,
Ha entre esses Baratas homens de intendimento
assás desbaratado, que sem saberem as
causas dos successos; e, o que ainda he mais,
sem as quererem examinar, clámão que S.M.I.
privou o povo Brasileiro de huma Constituição
que elle fizera em Côrtes; que atacou o
sagrado recinto do Congresso com peças de artilharia,
e que expellio delle os soberanos representantes
do povo soberano! O Imperador na
verdade, dissolvendo a assemblea dos terroristas,
salvou o Brasil de huma horrivel anarchia
—As paixões tinhão chegado ao maior
extremo—Ja nada era secreto; ja a provocação
á guerra civil se fazia em altas vozes dos
assentos desses energumenos politicos, chamados
Deputados. A ultima plebe instigada por
agentes de huma facção barbara e vingativa,
principiava a agitar-se de hum modo assustador:
todos os homens probos, páes de familias,
proprietarios, tratavão só de salvar as vidas.
O Imperador era o primeiro objecto a quem
os ingratos dirigião seus tiros—Ah! E quererá
alguem persuadir homens sinceros e desapaixonados,
que por amor á nação Brasileira,
devesse S. M. esperar os assassinos no limiar
Todos sabem, todos hão visto, que da parte
dos famosos Republicanos tem saido todas as
provocações á desordem, e á anarchia; e que
da parte do Imperador hão sido promovidas,
aconselhadas, auxiliadas, todas as medidas
conducentes para a estabilidade da nação, e
seus melhoramentos. Os Republicanos da
Camara hão sempre querido encher o tempo
dos trabalhos legislativos com dicterios, accusações,
e intrigas contra o Governo; deixando,
como que de proposito, para traz as
providencias de que a Nação tanto carece.
Insultos, increpações vagas, estolidas diatribas,
palavras indignas de huma Camara, discursos
das cocheiras, tem ás vezes sido o fructo
de huma legisladura. E o Imperador
prorogando sessões, increpando os deputados
pelo qne deixam de fazer, os exorta a que
occupem melhor o tempo. Tudo isto tem
sido publico e notorio—e tudo isto tem chamado
sobre S.M.I. a indignação dos mesmos
Meios de que se servem os inimigos da Monarchia
Brasileira.—Escriptos incendiarios
—Circunstancia sem que são perigosos, e em
que são indifferentes—Firmeza do Governo
indispensavel quando a civilisação o não
ajuda—Dr. Francia.
A ambição he huma das paixões mais violentas:
talvez a mais impetuosa de todas.
Não he de admirar que esta, de mãos dadas
com a baixa inveja (todos os vicios são alliados,
bem como todas as virtudes) e a van soberba,
Todos estes escriptos, a cuja frente se distingue
hum Republico em O, escrito por
hum Barata em A. tem por objecto fazer esquecer
ao povo Brasileiro os beneficios, que
deve ao seu Imperador, lançar hum véo sobre
o passado, e futuro; e representar os males
presentes, que são obra dos queixosos, e de
seus adherentes, como consequencia da organisação
politica do Governo, e das pertenções
de certos homens a tornar o Brasil escravo!
Sem embargo de que, em geral, o estabelecimento
da liberdade de imprensa he um
axioma politico, não deixa de haver casos em
que a regra deve ter excepções. Os governos
mais consolidados em occasiões criticas hão
suspendido essa liberdade. As leis repressivas
dos abusos da imprensa ás vezes são inuteis—
Quid leges sine moribus
Vanœ proficiunt, &a.
e agora o facto ha comprovado esta asserção
—O Jury, composto de demagogos, tão furiosos
S. M. I. tem feito grandes bens ao Brasil;
mas se deixasse de continuar a velar por elle,
serião perdidos; e no fim de 9 annos de diligencias,
de sacrificios, de disvelos, começarião
os horrores da anarchia, ainda mais furiosa
do que se nunca lá tivesse havido hum Governo
propriamente nacional. Para evitar tamanhos
inconvenientes he necessario firmeza
no Governo: sem ella succeder-lhe-ha como
ao Leão velho da fabula, em cuja cabeça até
o jumento ousou dar couces. Quando fallamos
em firmeza do Governo, bem longe
estamos de aconselhar medidas de terror,
golpes de estado, prisões arbitrarias e nocturnas:
A Historia moderna a cada pagina nos dá
demonstração destas verdades; e os homens
fechão a ellas os olhos! Nem em todas as
sociedades são uteis as mesmas instituições;
assim como nem todos os climas produzem os
mesmos fructos—O que em huns he veneno,
em outros he alimento proveitoso—
O pomo que da patria Persia veio
Melhor tornado no terreno alheio.
Como exemplo do quão pouco importão
Impossivel a passagem para a Republica no
Brasil sem a dissolução dos elementos existentes.
—Se ha defeito nas actuáes instituições,
povêm antes da mais, que da menos
liberdade.
No começo deste ultimo capitulo seja pertido
ao author dizer de si mui poucas palavras.
Se alguem, pelo titulo do mesmo capitulo, e
pelo seu teôr, julga o homem que o escreve
inimigo da liberdade: cáe em formal engano.
Se ha ente na terra que aborreça o despotismo,
he elle; mas este despotismo existe no coração
de muitos, que se chamão liberáes, como
existe nas instituições que se dizem essencialmente
livres.—Sigamos as lieções da experiencia:
Em tal caso só temos que tratar do Brasil;
e considerando-o no estado em que se acha de
huma Monarchia nascente, para cujo estabelecimento
ja existião elementos anteriores, e muitos
forão creados depois de formada ella, deverá
ser claro ao menos perspicaz observador, que,
para a este edificio se substituir hum de forma
republicana, era forçoso desmantelar o actual.
O caminho da Monarchia para a Republica
passa pelo cáhos da dissolução social, e nelle
se demora tempo indeterminado. Eis o que a
historia nos mostra como regra geral, até hoje
sem excessão. Como todas as instituições humanas
tem seu termo:—Debemur morti nos,
nostra que &c—chega o das Monarchias quando
longo tempo sem correcções, nem concertos, os
abusos nellas introduzidos estragão de modo o
edificio, que dão com elle em terra. Neste caso
parece que todos os males que se seguem á quéda
são necessidades inevitaveis; e estas necessidades
trabalhão mais que os homens para a
regeneração do Estado. Mas nas presentes circunstancias
tudo no Brasil está tão longe de
ser decrepito que he novo; e tão novo, que
ainda não póde dar fructo perfeito. A Monarchia
A separação do Brasil de Portugal, não ja
sua metropole, começou por hum movimento
que afrouxou os laços da obediencia, e do
respeito ás leis—He inevitavel a licença em
táes circunstancias; e a a população em geral,
até ali obrigada á subordinação, não
por costumes, ou por effeito de illustração,
mas sim por força, necessitava de ser reduzida
ao seu antigo estado de obediencia ás
mesmas leis, ou a outrrs, que substituissem
as primeiras. Para o ser, não havia outro
instrumento senão a força; huma força permanente;
e de maior corpo do que a que
bastára antes para sustentar o respeito ao
Governo. Mas como o dito Governo acabou,
e lhe foi substituido outro de differente forma,
postoque taobem monarchico; e como esta
differença na forma diminuio a sua efficacia
coactiva, que succedeo? Succedeu que desde
a emancipação até agora ainda se não conseguio
no Brasil a devida subordinação ás leis,
e aos magistrados- Daqui se segue que a liberdade
legal, outorgada pela Constituição,
Hum povo sem costumes necessita de illustraçãopar
aos ganhar de novo; masa illustração
he obra do tempo: antes que ella produza os
seus effeitos he preciso coacção, nem ha outro
modo de o reger. Ao passo que as feras se
vão domesticando, diminue-se a aspereza com
que são tratadas: ao passo em que a illustração
for entrando na massa da nação he que ella
deve ir recebendo a liberdade, de modo que
nem gose menôs do que merece, que isso fôra
tyrannia, nem de mais porque o excesso produziria
a desordem no Estado.
Se á emancipação Brasileira se seguisse,
por fatalidade igual á das possessões da America
Hespanholla, a divisão do territorio em
Republicas, ja vimos qual, mui provavelmente,
seria o resultado. A anarchia, como um incendio
havia de durar em quanto tivesse alimento;
mas com o andar dos annos surgiria
de novo outra gente, outros costumes. Assim
marchão as revoluções, que na verdade são o
principio de outras tantas regenerações.
Mas o Imperador do Brasil livrou o povo
Brasileiro dessa terrivel experiencia: elle
passou, quasi sem o sentir, de huma a outra
condição: achou-se independente como por
encanto. S. M. lhe concedeo amplo estádio
para a carreira da liberdade; mas a experiencia
desde logo lhe mostrou, e ao Brasil,
que a dadiva por demasia era nociva; e foi
forçoso corrigir os defeitos da primeira constituição.
Que he o que hoje torna a perturbar o
Brasil? Abusos da liberdade.—Estes abusos
dão-se indubitavelmente quando os magistrados
ou não tomam conhecimento do delicto
ou o não reputão como tal. O Governo pode
ter boas leis; porem quando não tenha quem
as execute, de que servem as leis? Desde o
momento em que se dá este estado de cousas
começa a dissolução: a dissolução consiste na
confusão, e desharmonia dos poderes, quando
estes deixão de cooperar na sua marcada
proporção para manter a ordem publica. Se
a justiça criminal não pune os delictos hé
certo que huma das molas da maquina, o poder
judicial, não quer o seu movimento; e por
consequencia desarranja o movimento das
outras molas; e ahi está destruida a maquina
social.
Cumpre acudir logo ao primeiro symptoma
de desorganisação—applicar ao mal promptos
e efficazes topicos. O Governo de qualquer
Estado tem esse por hum dos seus primeiros
deveres.
O mais nocivo instrumento que os revolucionarios
do Brasil empregão para a destruição
do Governo Imperial he a liberdade de imprensa,
de que fazem ja impune, e manifesto
abuso: corrija se o abuso, tire-se o punhal
das mãos do assassino.
Instrua-se o povo, que carece de instrúcção,
e he mui apto para ella.—Haja cuidado em
fazer-lhe amar o trabalho, tanto quanto o
clima o permitte. A instrucção, que se lhe
dá com huma nuvem estofada de papeis impressos,
chamados jornáes, em logar de ministrar-lhe
luz, he um corpo interposto entre
o povo e o sol da verdadeira e util instrucção.
Esta tem por fim, não fazer politicos de repente,
disputadores, e pregadores populares;
mas sim cidadãos industriosos, e pacificos,
amantes da verdadeira liberdade, que protege
a industria, a propriedade, e a virtude.